sexta-feira, 8 de junho de 2018

Coluna da Núbia Istela - Entenda garota, isso não é amor, é prisão disfarçada

Coluna da Núbia Istela - Entenda garota, isso não é amor, é prisão disfarçada


Chegamos ao mês dos amores. Mês em que o país inteiro se movimenta em prol de lucrar através dos corações apaixonados. Mas quem liga? Nessa época os romances se renovam e olhos brilham, a esperança de encontrar o verdadeiro amor se renova mediante uma rosa, um perfume, um presente que tanto se esperou. As cidades ficam mais lindas numa decoração em branco e vermelho e muitos corações espalhados por aí.


Mas não é sobre esse amor que eu quero falar hoje.


Visitaremos os submundos. Aquelas prisões disfarçadas de amor eterno.


Para você entender eu contarei algumas histórias. Começarei com um conto sobre a minha.


Em 2013 eu tive um noivo, eu estava no segundo ano da faculdade, pretendíamos nos casar em setembro daquele ano, éramos pessoas diferentes, com sonhos e ideais opostos. Na semana em que o levei para conhecer os meus pais, numa tarde começamos a falar de esposos e esposas ideais, ele começou, e eu escutava: “Esposa ideal para mim é aquela que fizer tudo o que eu mandar, que cuide da casa, cuide dos nossos filhos e se possível trabalhe para me ajudar”. Meu mundo caiu naquele momento, eu não me encaixava no mundo ideal dele, e nem queria esse mundo para mim. Duas semanas depois a caminho do meu trabalho ele me liga e diz: “Amor, você faria algo por mim?” Eu perguntei o que era e ele: “Deixaria a faculdade por mim?”. Aquilo soou como uma espada em meu peito, eu gostava dele, mas tinha lutado muito para conseguir uma vaga na faculdade, afinal eu era bolsista. Só então caiu a ficha que todo o comportamento dele não se adequava a mim, e nem eu a ele, se ficássemos juntos com certeza sofreríamos muito no futuro. Terminamos uma semana depois.


Outra história que quero contar para você é a da Larissa, eu a conheci em Brasília, a mais ou menos dois anos. Larissa é uma mulher incrível, ela é casada, tem filhos, e trabalha para sustentar a casa. Mas ela não pode sair só, nunca, jamais, ainda mais cruzar a fronteira de um estado para o outro sem que o marido vá junto. A Larissa me contou sobre sua vida e a forma como é manipulada, o marido fica sempre bêbado, e toda vez que ela quer ir embora de casa com as crianças, ele diz para ela “Para onde você vai, você não tem como se sustentar sozinha. Quem é o louco que vai querer você, é tão feia, é gorda. Se você for embora vai ficar para sempre sozinha porque ninguém vai querê-la”. A Larissa é linda, é o que chamamos de mulherão, eu a perguntei se ela acreditava nessas coisas ela disse que sim, que chega uma hora que tudo parece verdade. Ela está cauterizada com a insegurança do marido e não ver a verdade diante dos seus olhos. Larissa tem uma sede incurável de ver mundo, mas ainda não consegue.


Juliana eu conheci em Itu, no interior de São Paulo. A garota tem 23 anos, foi morar com o marido aos 18. Nada que Juliana quis até hoje ela pode fazer. Ela sonhava em fazer aulas de ballet porquê achava lindo, ela ama dançar, ele não deixou argumentando que ela era uma “baleia e que ia se arrebentar no chão”. Juliana desistiu do ballet e recentemente queria fazer pole dance, ele disse mais uma vez “Que com a gordura dela quebraria a barra de ferro”, ela mais uma vez acreditou. Quando a Juliana decidiu que entraria para polícia militar ele disse que “Do jeito que ela era louca seria bem capaz de matá-lo com a arma do trabalho”. Juliana um dia desistiu de tudo e quase que desiste da própria vida, e isso é só uma palhinha do que ele fazia com ela. Um dia ele chegou em casa e a achou quase em coma pela quantidade de medicamentos que ela tinha tomado. Ela ficou por uma semana no hospital, e os médicos disseram que por um pouquinho ela teria morrido. Juliana é linda, jovem, e tem um corpo que nós brasileiros chamamos de mulherão, gata, etc.


Todos os dias muitas mulheres passam por esse tipo de situação, algumas vão ao inferno e voltam, outras porém permanecem por lá, por não ter a força necessária para enfrentar os carceres chamados de amor. Muitas apanham, e inventam qualquer desculpa para sociedade, porque logo após a surra foi lhe prometido amor eterno e o “nunca mais vai acontecer”. Só que acontece incontáveis vezes.


Nunca, jamais, acredite no que falam de negativo contra você. Na maioria das vezes a insegurança é da outra parte. E você, garota, não tem o dever e nem obrigação de sofrer isso. Cuidado com as prisões disfarçadas de amor que existem por aí. Se você passa por isso, acredite, você encontrará sim algo muito melhor do que lhe ofereceram até agora. Queira e enxergue, o problema não é com você.


No mês do amor queira parceiros para vida. Aqueles que te aceitam como você é e que te levarão além do mundo, porque é assim o verdadeiro amor. Ele nos impulsiona, e não machuca.


Entenda garota, isso não é amor, é prisão disfarçada.


Agressão física e intelectual contra a mulher é crime, A lei Maria da Penha, nº11.340/2006, é a principal legislação brasileira que defende abusos contra a mulher. Denuncie 180.


Um grande abraço e até semana que vem. Enquanto isso me conte a sua experiência, converse comigo.


Instagram: @nubiaistela


Facebook: Núbia Istela


e-mail: nubiaistela@hotmail.com


 

Núbia Istela é jornalista, apresentadora dos programas EnCachos, ID, e Entre Vistas, no youtube. Recentemente lançou o livro Meias Verdades pela editora Chiado, é um livro de poesia baseado nas sensações mais profundas desse ser que chamamos de humano. A escritora idealizou a abertura da ONG Sociedade dos Pequenos Leitores, na qual é presidente. Apaixonada por livros dispensa maior parte do seu tempo em práticas literárias, escrita, e alfabetização para crianças. Nascida em Janaúba ao norte de Minas Gerais e moradora do interior paulista, costuma dizer que sua casa é o mundo, que deseja ser sim, cidadã do mundo.


 

[caption id="attachment_247283" align="aligncenter" width="220"]Núbia Istela Núbia Istela[/caption]

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